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Mercado em ‘ponto cego’: greve no BC prejudica projeções, dizem especialistas

A greve dos servidores do Banco Central já dura mais de 10 dias e, apesar da proposta do governo de reajuste salarial divulgada na quarta-feira (13), não há sinais de que o movimento se encerre nos próximos dias. Enquanto isso, especialistas do mercado ouvidos pelo InvestNews listam os prejuízos do atraso na divulgação de dados econômicos importantes, como Boletim Focus, fluxo cambial, Índice de Atividade Econômica do Banco Central – Brasil (IBC-Br), entre outros. 

Trabalhadores do BC paralisaram suas atividades em 1º de abril por tempo indeterminado, em uma reivindicação por reajuste salarial de 26,3%, na esteira de movimentos semelhantes em outros órgãos, como a Receita Federal. O presidente Jair Bolsonaro decidiu, então, conceder um aumento de 5% para todos os funcionários públicos do Executivo a partir de julho, uma medida com custo de R$ 6,3 bilhões aos cofres públicos em 2022. 

Horas depois da divulgação da proposta, o presidente do Sindicato Nacional de Funcionários do Banco Central (Sinal), Fábio Faiad, indicou que um reajuste de 5% seria insuficiente. “Se a proposta oficial for apenas 5% e mais nada da pauta não salarial, é insuficiente, vamos rejeitar e continuar a greve”, disse. 

Na sexta-feira (8), o BC informou à imprensa que, “devido à greve em curso, relatórios, notas e indicadores do BC não serão divulgados nas datas previstas, incluindo Focus, Indeco, Relatório de Poupança e IBC-Br”. “Oportunamente, informaremos com 24 horas de antecedência as novas datas para as divulgações”, disse o BC. 

Mercado sem ‘bússola’ 

Enquanto as negociações não encontram um desfecho, o mercado segue “no escuro” em relação a diversos dados importantes sobre o cenário econômico. O último Boletim Focus, por exemplo, foi divulgado em 28 de março – antes da divulgação do resultado de março do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que surpreendeu o mercado e levou a revisões nas projeções de diversas casas. 

Eduarda Korzenowski, economista-chefe da Somma Investimentos, comenta que os atrasos acabam “impactando o investidor, principalmente aqueles que utilizam esses dados para fazer projeção”. 

“A principal falta que a gente sente é a questão das expectativas. Nós não estamos tendo a divulgação do Focus, em que são divulgadas as expectativas para inflação, taxa de juros e tudo mais. A gente fica agora num ponto cego”, aponta Korzenowski, citando que surpresas como a do IPCA de março “acabam impactando as expectativas para os próximos anos”, e isso não está sendo mapeado. 

Marcelo Boragini, especialista em renda variável e sócio da Davos Investimentos, também comenta a ausência do Focus, que “é de extrema importância e serve como bússola do mercado”, e acrescenta que a greve “vem afetando também a divulgação do fluxo cambial, que já não é atualizado há duas semanas”. 

“Esses indicadores servem como balizadores para tomada de decisões dos gestores e mesas de operações das principais instituições do Brasil”, afirma ele. 

Renato Aragon, diretor associado da Xsfera, aponta que o atraso na divulgação dos dados pelo BC deve afetar “projeções de empresas de consultoria, de rating, das próprias tesourarias das instituições financeiras”. “Isso já é um grande impacto em relação ao que o mercado está acostumado a receber de informações”, comenta.

Ricardo Jorge, analista de renda fixa da Quantzed, aponta que “o atraso aumenta a dificuldade ao acesso à dados para alimentar modelos”. “Inclusive, várias casas já estão fazendo enquetes no mercado para apuração de informações não oficiais, como expectativa de inflação, câmbio, PIB e etc”, diz ele.

Vídeo: greve no BC atrasa divulgação do Focus; veja projeções para a Selic.

Existe ainda uma preocupação sobre um possível impacto da greve no BC para a reunião de maio do Comitê de Política Monetária (Copom), que deve decidir o rumo da taxa Selic. Mas, segundo o BC, os membros do Copom seguem com acesso atualizado aos dados das expectativas do mercado para a inflação e poderão utilizá-los para as decisões de política monetária apesar da greve.

Jorge, da Quantzed, não acredita que a decisão do Copom seja afetada. “Não existe essa possibilidade porque os integrantes do Copom não fazem parte do grupo de servidores em greve. Outro ponto é que o mercado trabalha com o calendário das reuniões para suas estimativas. Mudanças no calendário geram volatilidade e distorcem modelos. Já houve no passado caso de reunião extraordinária, mas não cancelamento”, lembra o analista.

Além da falta de informações

O atraso na divulgação de dados não é o único prejuízo da greve no BC apontado pelos especialistas. Um dos exemplos citados é o atraso no cronograma de implementação da moeda digital brasileira, atualmente em fase de elaboração pelo BC. A ideia do real digital, anunciado em 2021, é a utilização para pagamentos no varejo. A moeda funcionaria como uma “extensão do real”, emitida pelo próprio BC. 

“O projeto do real digital, que estava de vento em popa no BC, certamente entra em stand-by agora. É algo que os bancos e fintechs estão esperando com grande motivação”, critica Aragon, da Xsfera. 

Já Boragini, da Davos, acrescenta entre os impactos “a paralisação da homologação de 14 instituições para participarem do SPI, que é o sistema de liquidação de PIX interbancário, e para a abertura de conta PI, que significa ‘pagamentos instantâneos’ no Banco Central”. 

“Isso impossibilita que essas instituições ofereçam PIX aos seus clientes por meio de acesso direto ao SPI, causando um desconforto grande no mercado”, explica o especialista.

imagem14-04-2022-17-04-39Manifestante protesta por reajuste salarial de servidores com máscara do ministro da Economia, Paulo Guedes, em frente ao Palácio do Planalto em Brasília 02/02/2022 REUTERS/Adriano Machado

(*Com informações da Reuters e da Agência Estado)

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